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<channel><title><![CDATA[Bibliofagia - Blog]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog]]></link><description><![CDATA[Blog]]></description><pubDate>Fri, 15 Apr 2022 14:48:27 -0300</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[Uma outra "Ruinenwerttheorie”]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/uma-outra-ruinenwerttheorie]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/uma-outra-ruinenwerttheorie#comments]]></comments><pubDate>Thu, 28 Jan 2021 11:53:28 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/uma-outra-ruinenwerttheorie</guid><description><![CDATA[       Albert Speer, o arquiteto que foi amigo pessoal de Adolf Hitler, elaborou nos anos 1930 uma &ldquo;teoria do valor das ru&iacute;nas&rdquo;. Diante da vis&atilde;o dos imponentes monumentos erigidos pelo regime nazista (como o c&eacute;lebre Zeppelinfeld, projetado por ele mesmo), Speer teve uma vis&atilde;o de como seria aquele est&aacute;dio imenso centenas, milhares de anos no futuro, quando o pr&oacute;prio Reich tivesse se esfacelado e tudo fosse decad&ecirc;ncia e ru&iacute;na. Escr [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/20210127-084146_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">Albert Speer, o arquiteto que foi amigo pessoal de Adolf Hitler, elaborou nos anos 1930 uma &ldquo;teoria do valor das ru&iacute;nas&rdquo;. Diante da vis&atilde;o dos imponentes monumentos erigidos pelo regime nazista (como o c&eacute;lebre <em>Zeppelinfeld</em>, projetado por ele mesmo), Speer teve uma vis&atilde;o de como seria aquele est&aacute;dio imenso centenas, milhares de anos no futuro, quando o pr&oacute;prio Reich tivesse se esfacelado e tudo fosse decad&ecirc;ncia e ru&iacute;na. Escreveu Speer: &ldquo;Ele [o arquiteto] escolheu a pedra, que oferece todas as possibilidades dispon&iacute;veis em termos de forma e permite a persist&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o &ndash; uma tradi&ccedil;&atilde;o que permanece para n&oacute;s nos edif&iacute;cios feitos de pedra, erigidos por nossos antepassados &ndash; para as futuras gera&ccedil;&otilde;es gra&ccedil;as &agrave; sua const&acirc;ncia&rdquo;.<br /><br />Essa era a teoria fascista das ru&iacute;nas, que pretendia encontrar nas pilhas de escombros um valor m&iacute;tico, um ritual est&aacute;tico e perp&eacute;tuo, al&eacute;m de tedioso. Mas <em><a href="https://www.amazon.com/Ruins-Gaurav-Monga/dp/8193900502" target="_blank">Ruins</a></em>, novo livro de Gaurav Monga (editado pela Desirepaths Publishers com bela capa de Anil Thambai, em que as sugest&otilde;es do org&acirc;nico e inorg&acirc;nico, do constru&iacute;do e do natural, s&atilde;o exploradas), nos oferece outra possibilidade de entendimento das ru&iacute;nas &ndash; imprevis&iacute;vel, complexo, estimulante. Os escombros de Monga espalham-se por todos os cantos de nossa sociedade e mesmo as edifica&ccedil;&otilde;es mais novas, nas p&aacute;ginas de seu estranho livro, j&aacute; s&atilde;o ru&iacute;nas decadentes. A prosa de Monga &eacute; de sutileza infinita: mescla de percep&ccedil;&atilde;o narrativa, mem&oacute;ria vaga, reflex&atilde;o afor&iacute;stica e medita&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, escapa de todas as defini&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis e aponta para rumos e desdobramentos insidiosos e de fato inovadores dentro da perspectiva cultural conhecida como neodecadentismo. Horizontes novos, explorados a partir de perspectivas pioneiras que ultrapassam at&eacute; mesmo os princ&iacute;pios mais subversivos da psicogeografia.<br /><br />Em diversos momentos de <em>Ruins</em>, Monga fala do prazer infantil de coletar fragmentos das pilhas de escombros, fartamente dispon&iacute;veis nas grandes metr&oacute;poles, em constante constru&ccedil;&atilde;o/demoli&ccedil;&atilde;o at&eacute; um ponto em que j&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel identificar onde termina a ru&iacute;na e come&ccedil;a o edif&iacute;cio novo. Esse &eacute; o prazer que o leitor poder&aacute; obter do livro de Gaurav Monga.</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A alma das cidades (visões citadinas de Forrest Aguirre)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-alma-das-cidades-visoes-citadinas-de-forrest-aguirre]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-alma-das-cidades-visoes-citadinas-de-forrest-aguirre#comments]]></comments><pubDate>Tue, 25 Aug 2020 12:49:51 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-alma-das-cidades-visoes-citadinas-de-forrest-aguirre</guid><description><![CDATA["A estrela do Oriente clama, com centenas de l&acirc;minasQueimem as cidadesQueimem as cidades"("Queimem as cidades", Nathanael West)         Foto: Dan Ghetu.    Foi na faculdade, quando eu fazia o curso de lingu&iacute;stica na Universidade de S&atilde;o Paulo &ndash; foi nesse momento que adquiri o gosto por percorrer os corredores mais obscuros das bibliotecas. N&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia exata daquilo que buscava &ndash; mas o fazia, furiosamente. Inclusive ao consultar as ex&oacute;t [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph" style="text-align:right;">"A estrela do Oriente clama, com centenas de l&acirc;minas<br />Queimem as cidades<br />Queimem as cidades"<br />("Queimem as cidades", Nathanael West)</div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/varvarus_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">Foto: Dan Ghetu.</div>  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph">Foi na faculdade, quando eu fazia o curso de lingu&iacute;stica na Universidade de S&atilde;o Paulo &ndash; foi nesse momento que adquiri o gosto por percorrer os corredores mais obscuros das bibliotecas. N&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia exata daquilo que buscava &ndash; mas o fazia, furiosamente. Inclusive ao consultar as ex&oacute;ticas teorias urban&iacute;sticas, as reflex&otilde;es sobre a cidade nas mais delirantes possibilidades, publicadas pela editora espanhola Gustavo Gili. Ao mesmo tempo, desbravava a metr&oacute;pole gigantesca, S&atilde;o Paulo &ndash; novamente, buscava algo que eu mesmo n&atilde;o sabia bem o que era. Talvez fosse algo novo, &uacute;nico; o herm&eacute;tico; o vertiginoso; aquilo que, mesmo estando &agrave; vista de todos, n&atilde;o &eacute; percebido em toda sua magnitude. Talvez fosse algo que eu jamais poderia encontrar de forma direta e simples, como um item em uma prateleira, um ponto fixo em um mapa. Creio que minha busca se centrava em algo m&aacute;gico &ndash; uma chave, uma cifra, um c&oacute;digo, qualquer elemento que desfizesse a tessitura do mundo, que possibilitasse ao espa&ccedil;o-tempo um salto destrutivo, definitivo. Forrest Aguirre, em seu soberbo trabalho de t&iacute;tulo <em>The Varvaros Ascension</em>, oferece, de fato, n&atilde;o uma mas duas dessas estranhas chaves para desfazer/refazer o mundo &ndash; a Cidade e a Ancestralidade.<br /><br />Mas antes de descrevermos essas estranhas oferendas ao leitor (afinal, n&atilde;o &eacute; sempre que testemunhamos o desdobrar de dois enigmas sangrentos, sacrificiais, em uma &uacute;nica narrativa interpolada), &eacute; preciso uma apresenta&ccedil;&atilde;o um pouco mais formal do livro e de sua trama. Talvez at&eacute; mesmo algo acad&ecirc;mica &ndash; pois isso n&atilde;o seria injusto com o autor, seu <em>plot</em>&nbsp;e seu texto. De fato, o mundo das universidades, das teses, das bolsas, do mestrado, do doutorado, do p&oacute;s-doutorado, dos professores que s&atilde;o pesquisadores, dos rituais de pesquisa, das aulas, da gradua&ccedil;&atilde;o &ndash; todo o estranho mandarinato universit&aacute;rio faz parte da intrincada narrativa de <em>The Varvaros Ascension</em>. Mas tal envolvimento est&aacute; longe de tornar a trama intrag&aacute;vel ou tediosa como tais ambientes universit&aacute;rios, muitas vezes, s&atilde;o; a trama de Aguirre &eacute; &aacute;gil, veloz, bem-humorada e extremamente inventiva, algo que ver&iacute;amos nas s&eacute;ries de televis&atilde;o se seus <em>showrunners</em>&nbsp;fossem figuras como Fritz Lang, Raoul Ruiz ou Hiroshi Teshigahara. Ou Nigel Kneale, que um dia, em alguma dimens&atilde;o do <em>continuum</em> temporal, trabalhou na televis&atilde;o.&nbsp;<br /><br />A novela de Aguirre &eacute; ardilosa por se desdobrar em um duplo, em uma potencialidade que ultrapassa a apresenta&ccedil;&atilde;o inicial de um t&iacute;tulo (<em>The Varvaros Ascension</em>) em prol de dois outros subt&iacute;tulos ("The Arch: Conjecture of the Cities" e "The Ivory Tower"). Dessa primeira bifurca&ccedil;&atilde;o, temos inclusive um nome confundido como t&iacute;tulo de livro dieg&eacute;tico &ndash; mas que poderia ser um livro perfeitamente real, em alguma obscura bibliografia acad&ecirc;mica. De fato, nem mesmo de um livro se trata de fato; e a obra de Aguirre, em verdade, seguindo essa estranha mistifica&ccedil;&atilde;o, amplia-se em v&aacute;rios outros livros, que se abrem aos olhos do leitor gra&ccedil;as &agrave; capacidade vision&aacute;ria do autor. H&aacute; inscri&ccedil;&otilde;es, sinais e modos de leitura na cidade (Madison) que cerca os personagens, na universidade, nos frisos que ornam um dos edif&iacute;cios descritos, na disposi&ccedil;&atilde;o dos mendigos em uma vizinhan&ccedil;a, nos ossos &ndash; ancestrais e novos. Todos esses livros, escritos em diversas linguagens, tornam-se instigantes pela <em>vis&atilde;o</em>&nbsp;de seu autor, que consegue destilar dos &aacute;ridos ambientes urbanos nas vizinhan&ccedil;as das universidades um denso e perturbador caldo cultural. &Eacute; como se Arthur Machen tivesse frequentado a universidade, tendo como orientador de suas pesquisas (na Universidade de Columbia) Herbert Marcuse.<br /><br />Como usual, a edi&ccedil;&atilde;o de <em>The Varvaros Ascension</em>, realizada pela Mount Abraxas, &eacute; espetacular. A capa, com ilustra&ccedil;&atilde;o de <a href="https://www.instagram.com/strangegodsart/?hl=pt-br" target="_blank">Valin Matheis</a>, alude a imagens ancestrais primevas, rupestres e, ao mesmo tempo, ao anjo ca&iacute;do (mas em representa&ccedil;&atilde;o invertida) de <em><a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fr&egrave;res_Limbourg_-_Tr&egrave;s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_-_chute_des_anges_rebelles_-_Google_Art_Project.jpg" target="_blank">Tr&egrave;s Riches Heures du Duc de Berry</a></em>, dos irm&atilde;os Limbourg. As imagens internas, de desola&ccedil;&atilde;o urbana, seguem perfeitamente o imagin&aacute;rio das narrativas de Aguirre. O acabamento, de qualidade impec&aacute;vel (como usual nos livros da Mount Abraxas) e o formato pouco usual transformam esse livro em ins&oacute;lito objeto de culto &ndash; o estranho artefato a ser usado em uma cerim&ocirc;nia.<br /><br />E adentramos o potencial apocal&iacute;ptico do livro, duplicado pela narrativa. Os protagonistas das duas tramas paralelas &ndash; que se encontram, literalmente, no infinito &ndash; s&atilde;o os desbravadores de uma <em>outra</em>&nbsp;realidade, materializada em um tipo espec&iacute;fico de narrativa que, nossos protagonistas logo descobrem, tornam as conven&ccedil;&otilde;es usualmente aceitas absurdas. Que narrativa seria essa? Ora, aquela que ocorre neste livro &uacute;nico, <em>The Varvaros Ascension</em>. E diante da deliciosa armadilha desse <em>loop</em>, buscamos a repeti&ccedil;&atilde;o: pois leremos este livro novamente, muitas vezes, e sempre nos parecer&aacute; intrincado e alucinado. Pois esta ascens&atilde;o nos transforma em peregrinos em progress&atilde;o infinita, na busca de novos sinais para outros &ndash; muitos, infind&aacute;veis &ndash; apocalipses.<br /><br /></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os caminhos da queda (duas narrativas de Jonathan Wood)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/os-caminhos-da-queda-duas-narrativas-de-jonathan-wood]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/os-caminhos-da-queda-duas-narrativas-de-jonathan-wood#comments]]></comments><pubDate>Tue, 11 Aug 2020 11:01:31 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/os-caminhos-da-queda-duas-narrativas-de-jonathan-wood</guid><description><![CDATA[       Foto de Alcebiades Diniz Miguel.         Foto de Dan Ghetu.    As sutilezas da mente que se desintegra &ndash; daquela mente usual, que percebemos em nosso cotidiano, quando desloca-se de seu compasso usual em novas e inesperadas dire&ccedil;&otilde;es &ndash; s&atilde;o um tema recorrente na literatura. Essa jornada &iacute;ntima, tenebrosa, est&aacute; na base de boa parte da fic&ccedil;&atilde;o de Edgar Allan Poe, por exemplo, com seus personagens que&nbsp;deliberadamente&nbsp;destro& [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/img-20200810-083027-2_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">Foto de Alcebiades Diniz Miguel.</div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/deepest_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">Foto de Dan Ghetu.</div>  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph">As sutilezas da mente que se desintegra &ndash; daquela mente usual, que percebemos em nosso cotidiano, quando desloca-se de seu compasso usual em novas e inesperadas dire&ccedil;&otilde;es &ndash; s&atilde;o um tema recorrente na literatura. Essa jornada &iacute;ntima, tenebrosa, est&aacute; na base de boa parte da fic&ccedil;&atilde;o de Edgar Allan Poe, por exemplo, com seus personagens que&nbsp;<em>deliberadamente</em>&nbsp;destro&ccedil;avam suas pr&oacute;prias vidas, impulsionados por um sentimento vago de horror &agrave; normalidade que o autor denominava&nbsp;<em>perversidade</em>. Busca-se, em boa parte da fic&ccedil;&atilde;o feita ap&oacute;s Poe e que trilha esses passos incertos, algum tipo de penetra&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica, de mergulho explorat&oacute;rio na consci&ecirc;ncia doentia; at&eacute; mesmo Dostoi&eacute;vski optou por essa dire&ccedil;&atilde;o. Mas existe outro caminho &ndash; o deslumbramento diante da desintegra&ccedil;&atilde;o. H&aacute;, portanto, obras que optam por contemplar os processos complexos da mente &agrave; beira da extin&ccedil;&atilde;o para obter certo grau de &ecirc;xtase &ndash; o mergulho investigativo torna-se rumor po&eacute;tico, sagrado. Foi assim com Lautr&eacute;amont, com os surrealistas, com Alain Robbe-Grillet e &eacute;, da mesma forma, com esse espetacular ficcionista que &eacute; Jonathan Wood.<br />&nbsp;<br />Evidentemente, Jonathan est&aacute; longe de ser um ne&oacute;fito no que tange &agrave; cria&ccedil;&atilde;o ficcional. &Eacute; poeta, contista, romancista e editor com vasta produ&ccedil;&atilde;o de qualidade sempre soberba. &Eacute; um verdadeiro artes&atilde;o da narrativa breve. Uma de suas melhores&nbsp;<em>novelettes</em>,&nbsp;<em>The New Fate</em>&nbsp;(2013) j&aacute; trabalhava os temas da divis&atilde;o e da ruptura da mente em um contexto vertiginoso, de cat&aacute;strofe e de enlevo, que deixa o leitor com l&aacute;grimas nos olhos ao final do livro; l&aacute;grimas de tristeza e de j&uacute;bilo. De certa forma, essas duas&nbsp;<em>novelletes</em>,&nbsp;<em><a href="https://www.goodreads.com/book/show/44230039-the-deepest-furrow" target="_blank">The Deepest Furrow</a></em>&nbsp;e&nbsp;<em><a href="https://www.zagava.de/shop/the-delicate-shoreline-beckons-us?edition=8&amp;versions=0" target="_blank">The Delicate Shoreline Beckons Us</a></em>, editadas no mesmo ano de 2019 revisitam sua obra-prima anterior, mas com uma articula&ccedil;&atilde;o diferente e bastante rica, uma op&ccedil;&atilde;o mais clara por molduras narrativas que possam sublinhar os elementos densos que se agitam no interior da trama. J&aacute; vi cr&iacute;ticas a Jonathan relatando como suas obras s&atilde;o um pouco abstratas, o que geram certa dificuldade de conex&atilde;o com os personagens. Nas duas narrativas de 2019, com toda certeza, essa conex&atilde;o &eacute; imediata, e isso sem a perda da abstra&ccedil;&atilde;o reflexiva.&nbsp;<br />&nbsp;<br />Ambas narrativas parecem atingir diferentes pontos tem&aacute;ticos e estil&iacute;sticos, a partir de uma percep&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, de um insight po&eacute;tico mais ou menos comum a ambas. Em outras palavras: trabalham aspectos (terr&iacute;veis e pavorosos, sem d&uacute;vida, mas tamb&eacute;m c&iacute;clicos, ritual&iacute;sticos) da mente humana, mas de uma perspectiva casu&iacute;stica transl&uacute;cida ao leitor. No caso de&nbsp;<em>The Deepest Furrow</em>, a moldura &eacute; daquilo que se convencionou chamar "folk horror"; mas a abordagem filos&oacute;fica de Wood &eacute; t&atilde;o densa que ultrapassa o mero conflito entre citadino e rural, crist&atilde;o e pag&atilde;o, civilizado e b&aacute;rbaro (t&atilde;o usual nessas tramas) para uma vis&atilde;o niilista que abarca todas as perspectivas humanas em uma mesma espiral constante de opress&atilde;o e extin&ccedil;&atilde;o. J&aacute; em&nbsp;<em>The Delicate Shoreline Beckons Us</em>, temos uma narrativa quase policial a partir da perspectiva do criminosos, um "caper" como especificado na introdu&ccedil;&atilde;o de Mark Valentine; mas novamente o cinismo do protagonista n&atilde;o facilita em nada algum tipo de reden&ccedil;&atilde;o her&oacute;ica. Como &eacute; poss&iacute;vel perceber, a pot&ecirc;ncia da trama de Jonathan ultrapassa os limites e as fronteiras estabelecidas pelas molduras narrativas que ele emprega para suas pinturas de desespero e morte &ndash; mas tamb&eacute;m de &ecirc;xtase e transfigura&ccedil;&atilde;o.<br />&nbsp;<br />Os dois livros s&atilde;o, igualmente, express&otilde;es de belezas diferentes &ndash; h&aacute; uma abstra&ccedil;&atilde;o singela em&nbsp;<em>The Delicate Shoreline Beckons Us</em>, editado pela Zagava (minha edi&ccedil;&atilde;o &eacute; a paperback, mais barata, mas h&aacute; no site da editora op&ccedil;&otilde;es muito mais luxuosas), com a imagem fotogr&aacute;fica mas indefinida em sua capa, sugerindo o fluxo das &aacute;guas do mar; h&aacute; uma f&uacute;ria barroca em&nbsp;<em>The Deepest Furrow</em>, expressa notadamente na capa espetacular de, incrivelmente intrincada como a pr&oacute;pria novellete de Jonathan. Essa oposi&ccedil;&atilde;o segue normalmente em ambas e cria um contraste espetacular. Talvez seja necess&aacute;rio, contudo, destacar o aspecto cinematogr&aacute;fico das edi&ccedil;&otilde;es da Mount Abraxas, ricas em um colorido que &eacute; sugerido pelo pr&oacute;prio papel em que o livro &eacute; impresso. Mas esse &eacute; um outro patamar de significa&ccedil;&atilde;o.<br />&nbsp;<br />&Eacute; interessante comparar as duas narrativas breves de Jonathan com filmes recentes que trilharam caminhos espec&iacute;ficos semelhantes, mas sem a mesma riqueza (embora, sem d&uacute;vida, sejam bons filmes).&nbsp;<em>Midsommar, o Mal N&atilde;o Espera a Noite</em>&nbsp;(2019) de Ari Aster pode ser comparado com&nbsp;<em>The Deepest Furrow</em>&nbsp;e&nbsp;<em>A Casa que Jack Construiu</em>&nbsp;(2018) de Lars Von Trier, com&nbsp;<em>The Delicate Shoreline Beckons Us</em>.&nbsp;Mas os filmes ainda s&atilde;o enquadrados pelos clich&ecirc;s de seus g&ecirc;neros, pelos dispositivos empregados em sua confec&ccedil;&atilde;o; j&aacute; as&nbsp;<em>novelettes</em>&nbsp;de Jonathan fluem pelo selvagem territ&oacute;rio entre a vis&atilde;o e o pensamento.&nbsp;A riqueza trancendente das hist&oacute;rias de Jonathan talvez um dia chegue ao cinema; mas talvez o melhor mesmo seja desfrutar delas na amplitude infinita das p&aacute;ginas impressas desses dois livros soberbos.<br /></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Visões de uma morte régia (sobre "A Crown of Dusk And Sorrow", de Ben Tweddell)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/visoes-de-uma-morte-regia-sobre-a-crown-of-dusk-and-sorrow-de-ben-tweedle]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/visoes-de-uma-morte-regia-sobre-a-crown-of-dusk-and-sorrow-de-ben-tweedle#comments]]></comments><pubDate>Sat, 01 Aug 2020 10:21:42 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/visoes-de-uma-morte-regia-sobre-a-crown-of-dusk-and-sorrow-de-ben-tweedle</guid><description><![CDATA[       The Idolatry of King Solomon, Salomon Koninck, 1644.    "Ent&atilde;o com incerta luz no olharPor algum tempo estive a oferecerE preservar em recorda&ccedil;&otilde;es vacilantesO doce amargo dos dias que se foram."(The House of Wolflings, William Morris)Talvez uma das figuras mais recorrentes nas produ&ccedil;&otilde;es narrativas humanas seja o rei, a figura coroada; ele surge com frequ&ecirc;ncia nas lendas, nos contos de fada, nos mitos, nas sagas, nas cr&ocirc;nicas, nos romances e n [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/sk-a-2220_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph"><em>The Idolatry of King Solomon</em>, Salomon Koninck, 1644.</div>  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph">"Ent&atilde;o com incerta luz no olhar<br />Por algum tempo estive a oferecer<br />E preservar em recorda&ccedil;&otilde;es vacilantes<br />O doce amargo dos dias que se foram."<br />(<em>The House of Wolflings</em>, William Morris)<br /><br />Talvez uma das figuras mais recorrentes nas produ&ccedil;&otilde;es narrativas humanas seja o rei, a figura coroada; ele surge com frequ&ecirc;ncia nas lendas, nos contos de fada, nos mitos, nas sagas, nas cr&ocirc;nicas, nos romances e nos poemas dos mais variados tipos, at&eacute; mesmo nas representa&ccedil;&otilde;es mais populares da literatura e do cinema contempor&acirc;neos. Por vezes, essa figura real se manifesta como soberano; em outras, como guerreiro; tamb&eacute;m pode ser representado como um Deus ou como uma apagada figura em segundo plano. H&aacute; dignidade em sua presen&ccedil;a, por vezes esperan&ccedil;a (como nas no&ccedil;&otilde;es de retorno, acalentadas nas fantasias arturianas e do sebastianismo portugu&ecirc;s), mas tamb&eacute;m melancolia e uma vaga resson&acirc;ncia do poderio e da riqueza que esses seres disp&otilde;em no plano da realidade. Mas por vezes h&aacute; loucura, e horror, e tirania, e morte, como nas trag&eacute;dias shakespereanas, nos filmes sobre a solid&atilde;o do poder &ndash; afinal, os l&iacute;deres pol&iacute;ticos de regimes totalit&aacute;rios adquiriram mimeticamente algo da chama maldita das cabe&ccedil;as coroadas &ndash; de Alexander Sokurov,&nbsp;<em>Moloch</em>&nbsp;(1999),&nbsp;&nbsp;<em>Taurus</em>&nbsp;(2001) e&nbsp;<em>O Sol</em>&nbsp;(2005). Mas, apesar de toda essa variedade, a maneira como essa&nbsp;<em>ideia</em>&nbsp;de rei ressurge na vigorosa e din&acirc;mica novela de Ben Tweddell,&nbsp;<em>A Crown of Dusk And Sorrow</em>&nbsp;soa incrivelmente nova, publica&ccedil;&atilde;o extraordinariamente bela (mais sobre isso adiante) a cargo da Mount Abraxas de Bucareste.<br />&nbsp;<br />A novela de Tweddell, animada pela ferocidade r&eacute;gia que est&aacute; em sua ess&ecirc;ncia, parece abarcar uma amplitude de ideias e conceitos poss&iacute;veis com uma profundidade ao mesmo tempo minimalista e complexa, demonstrando um dom&iacute;nio extremo na arte da novela, que &eacute; a arte da s&iacute;ntese. Ambientada em uma &eacute;poca terr&iacute;vel, de promessas e de desgra&ccedil;a &ndash; os anos 1930 &ndash;, nessa estranha &aacute;rea rural inglesa que fazia a del&iacute;cia de Arthur Machen, acompanhamos as descobertas de Daniel Turner em torno de um livro em sua biblioteca, uma preciosidade estudada com um "amigo" que surge repentinamente, Jacob Bartholomew. Buscam trechos reveladores a respeito de uma estranha figura m&iacute;stica do s&eacute;culo XVIII. Mas essa busca logo salta dos livros para as trilhas nas florestas mais sombrias imagin&aacute;veis. Neste ponto, a trama, que fornece essa contempla&ccedil;&atilde;o vision&aacute;ria e po&eacute;tica do imp&eacute;rio da natureza &ndash; aos moldes de Machen e Blackwood &ndash; ganha diversas reviravoltas, al&eacute;m de sinuosas transforma&ccedil;&otilde;es. H&aacute; investiga&ccedil;&otilde;es bibliogr&aacute;ficas e sonhos premonit&oacute;rios, festas sociais abaladas por presen&ccedil;as sombrias e o vislumbre de sombras espantosas, vener&aacute;veis. A&nbsp;<em>coroa</em>&nbsp;do t&iacute;tulo surge nesses vislumbres, mas a trama jamais perde sua intensidade, a for&ccedil;a de seu aperto.<br />&nbsp;<br />Ben Tweddell &eacute; um autor que, desde seu primeiro romance pela Mount Abraxas,&nbsp;<em>The Dance of Abraxas</em>, demonstra um dom&iacute;nio dos temas relacionados &agrave; persegui&ccedil;&atilde;o/fuga (que se tornam pap&eacute;is eventualmente intercambi&aacute;veis) e acomodamento/transforma&ccedil;&atilde;o (processos que ocorrem por intera&ccedil;&otilde;es vision&aacute;rias e transfigura&ccedil;&otilde;es de tirar o f&ocirc;lego). Assim, essa aproxima&ccedil;&atilde;o com a tem&aacute;tica r&eacute;gia &eacute; atravessada por uma fantasmagoria de persegui&ccedil;&atilde;o, quase uma revis&atilde;o do mito da "ca&ccedil;a selvagem" em novos termos transcendentes &ndash; a solid&atilde;o do poder torna-se palp&aacute;vel, e a ru&iacute;na bem mais efetiva do que seria qualquer met&aacute;fora. Pois trata-se de um autor que cultiva uma literatura t&atilde;o soturna quanto ext&aacute;tica, t&atilde;o brutal quanto transcendente.<br />&nbsp;<br />A edi&ccedil;&atilde;o da Mount Abraxas, "Isolationnist Publisher" de Bucareste, &eacute; um primor em mais de um sentido. O fluxo do texto na p&aacute;gina, ao seguir a velha m&aacute;xima de William Morris (que no livro leg&iacute;vel o balan&ccedil;o entre o espa&ccedil;o da margem e a &aacute;rea de texto devia ser o mais perfeito poss&iacute;vel) cria um efeito que s&oacute; podemos denominar&nbsp;<em>cinematogr&aacute;fico</em>, e que j&aacute; detectamos e destacamos em outros livros da mesma editora. &Eacute; amais perfeita demonstra&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as entre livro digital e livro impresso, e da superioridade deste &uacute;ltimo. Por outro lado, as pinturas de John Caple, na capa e no interior do livro, s&atilde;o espetaculares, traduzindo com particular intensidade o entendimento de que a ilumina&ccedil;&atilde;o, de qualquer tipo, resulta n&atilde;o apenas m uma descoberta essencial, mas na&nbsp;<em>morte</em>&nbsp;de uma parte humana no indiv&iacute;duo, gerando um gradativo afastamento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade dos vivos, em busca dos infind&aacute;veis dom&iacute;nios da Natureza. Suas imagens s&atilde;o carregadas de um simbolismo esot&eacute;rico n&atilde;o distante daquele de De Chirico &ndash; figuras hier&aacute;ticas, isoladas, contemplando a escura desola&ccedil;&atilde;o da natureza ao seu redor que se expande por meio de estruturas tentaculares vagamente semelhantes a galhos e ramos.<br />&nbsp;<br />Mount Abraxas &eacute; uma editora conhecida pela pequena tiragem de seus livros incr&iacute;veis. Este ter&aacute; o mesmo destino e poder&aacute; transformar-se em algo como o fragmento de pesadelo da mente humana. N&atilde;o se fa&ccedil;a de rogado caso, nas d&eacute;cadas futuras, encontre algum exemplar desta preciosidade em um pequeno sebo, perdido no interior de alguma cidade desconhecida...</div>  <div><div style="height: 20px; overflow: hidden;"></div> 				<div id='685042268977682931-gallery' class='imageGallery' style='line-height: 0px; padding: 0; margin: 0'><div id='685042268977682931-imageContainer0' style='float:left;width:33.28%;margin:0;'><div id='685042268977682931-insideImageContainer0' style='position:relative;margin:5px;'><div class='galleryImageHolder' style='position:relative; width:100%; padding:0 0 75%;overflow:hidden;'><div class='galleryInnerImageHolder'><a href='http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/0001_orig.jpg' rel='lightbox[gallery685042268977682931]'><img src='http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/0001.jpg' class='galleryImage' _width='800' _height='473' style='position:absolute;border:0;width:126.85%;top:0%;left:-13.42%' /></a></div></div></div></div><div id='685042268977682931-imageContainer1' style='float:left;width:33.28%;margin:0;'><div id='685042268977682931-insideImageContainer1' style='position:relative;margin:5px;'><div class='galleryImageHolder' style='position:relative; width:100%; padding:0 0 75%;overflow:hidden;'><div class='galleryInnerImageHolder'><a href='http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/0002_orig.jpg' rel='lightbox[gallery685042268977682931]'><img src='http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/0002.jpg' class='galleryImage' _width='800' _height='600' style='position:absolute;border:0;width:100%;top:-0%;left:0%' /></a></div></div></div></div><span style='display: block; clear: both; height: 0px; overflow: hidden;'></span></div> 				<div style="height: 20px; overflow: hidden;"></div></div>  <div class="paragraph"><em>Fotos de Dan Ghetu.</em></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vertigem visionária do abismo (a voragem de “Sermons In a House of Grief”)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/vertigem-visionaria-do-abismo-a-voragem-de-sermons-in-a-house-of-grief]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/vertigem-visionaria-do-abismo-a-voragem-de-sermons-in-a-house-of-grief#comments]]></comments><pubDate>Sun, 22 Dec 2019 04:07:41 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/vertigem-visionaria-do-abismo-a-voragem-de-sermons-in-a-house-of-grief</guid><description><![CDATA[       &Eacute; c&eacute;lebre o come&ccedil;o de Temor e Tremor&nbsp;de Kierkegaard &ndash; por &ldquo;nada saber&rdquo; do hebraico, ao menos n&atilde;o o suficiente para a exegese que pretendia, o autor repete quatro vezes a narrativa do Sacrif&iacute;cio de Abra&atilde;o. Essas quatro breves releituras s&atilde;o feitas antes de um paneg&iacute;rico em homenagem ao patriarca b&iacute;blico, c&eacute;lebre por quase ter matado o pr&oacute;prio filho, Isaac. Talvez, a repeti&ccedil;&atilde;o o [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/sunset_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">&Eacute; c&eacute;lebre o come&ccedil;o de <em>Temor e Tremor</em>&nbsp;de Kierkegaard &ndash; por &ldquo;nada saber&rdquo; do hebraico, ao menos n&atilde;o o suficiente para a exegese que pretendia, o autor repete quatro vezes a narrativa do Sacrif&iacute;cio de Abra&atilde;o. Essas quatro breves releituras s&atilde;o feitas antes de um paneg&iacute;rico em homenagem ao patriarca b&iacute;blico, c&eacute;lebre por quase ter matado o pr&oacute;prio filho, Isaac. Talvez, a repeti&ccedil;&atilde;o obsessiva dessa narrativa, do <em>suspense</em> b&iacute;blico em torno da potencial morte de Isaac, de seu assassinato pelo pr&oacute;prio pai, aponte para uma d&uacute;vida terr&iacute;vel sentida por Kierkegaard diante do abismo da f&eacute;: ser&aacute; que a vis&atilde;o de Abra&atilde;o era de fato verdadeira? N&atilde;o seria uma ilus&atilde;o dos sentidos?&nbsp;<br /><br />Mas h&aacute; algo ainda pior, um pesadelo mais terr&iacute;vel para o profeta, para o vision&aacute;rio: e se tal sangrento holocausto fosse n&atilde;o inspirado pelo Alt&iacute;ssimo, mas o resultado de uma quimera diab&oacute;lica, de uma percep&ccedil;&atilde;o errada dos sinais de uma realidade cambiante/alucinada, de uma ilus&atilde;o terrivelmente equivocada? Nesse caso, o profeta fundador transformaria-se em um mero assassino; perverso talvez, que arrancasse de seu crime n&atilde;o apenas a justificativa pela cren&ccedil;a, mas certo prazer inomin&aacute;vel. Essa, no final das contas, &eacute; a mesma d&uacute;vida de todo aquele aben&ccedil;oado ou amaldi&ccedil;oado (as duas op&ccedil;&otilde;es s&atilde;o igualmente poss&iacute;veis) pela possibilidade de viver no peculiar universo vision&aacute;rio. E &eacute; a ambiguidade dessa ben&ccedil;&atilde;o/maldi&ccedil;&atilde;o que est&aacute; na ess&ecirc;ncia de uma das mais extraordin&aacute;rias narrativas de 2019, a novela&nbsp;<em><a href="https://www.goodreads.com/book/show/48585513-sermons-in-a-house-of-grief" target="_blank">Sermons In a House of Grief</a></em>, de Benjamin Tweddle, publicado pela Mount Abraxas &ndash; um dos melhores livros de 2019 e um trabalho pioneiro pelo tratamento desse universo ao mesmo tempo t&atilde;o concreto e t&atilde;o fantasmag&oacute;rico, a <em>esfera vision&aacute;ria</em>.<br /><br /><em>Sermons</em> &eacute; uma das &uacute;nicas, das mais verdadeiras obras a respeito daquilo que denominamos de &ldquo;esfera vision&aacute;ria&rdquo; &ndash; de modo geral, um fen&ocirc;meno muito estranho e complexo, dif&iacute;cil de delimitar e compreender. Por vezes tratado nos limites das pesquisas e da profilaxia das doen&ccedil;as mentais, em outros momentos surge evocado nos tratados de antropologia ou nas exegeses m&iacute;sticas, mas tamb&eacute;m nas descri&ccedil;&otilde;es mais t&eacute;tricas dos manic&ocirc;mios, a esfera vision&aacute;ria surge do curto circuito entre a percep&ccedil;&atilde;o usual da realidade captada por nossos sentidos com uma transfigura&ccedil;&atilde;o provocada por elementos projetados de nossa mente, mas que ao se mesclarem com os elementos usuais, concretos, transformam essa realidade percebida em <em>outra coisa</em>. Tweddle parece fascinado por tudo o que diz respeito &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es operadas pela esfera vision&aacute;ria e isso est&aacute; bem claro em seus dois primeiros romances, <em>The Dance of Abraxas</em> (2018) e <em>The Salix Arcanum</em> (2019). Mas em <em>Sermons</em>, a constru&ccedil;&atilde;o &eacute; ao mesmo tempo delicada &ndash; sugerindo em cada detalhe, como por exemplo os efeitos auditivos e t&aacute;teis da atividade vision&aacute;ria, al&eacute;m do salto que h&aacute; muitas vezes entre a mente consciente e o estado vision&aacute;rio &ndash; e complexa, pois a esfera vision&aacute;ria de Leo e Matias (os dois protagonistas) parece exigir um esfor&ccedil;o interativo consider&aacute;vel dos personagens que logo &eacute; transferido para o leitor. Pois as vis&otilde;es inspiradas, ou melhor dizendo despertadas, pela l&iacute;der da seita &ldquo;Kartanoista&rdquo; (Kartanoism), Alma Kartano, parecem exigir uma leitura que se baseia em uma tr&iacute;plice postura, aparentemente contradit&oacute;ria: meditativa, interpretativa e transformativa. Dessa forma, &eacute; perp&eacute;tua a d&uacute;vida a respeito da <em>validade</em> (a quest&atilde;o da <em>veracidade</em> &eacute; abordada de forma ir&ocirc;nica, no momento em que a trama sublinha ecos do filme <em>The Wicker Man</em>) das vis&otilde;es n&atilde;o abandona os personagens nem mesmo no final, quando tudo parece indicar um <em>salto </em>definitivo e final. Essa imaginativa abordagem &eacute; original dentro da longa tradi&ccedil;&atilde;o da literatura vision&aacute;ria desde Swedenborg ou antes, com Mestre Eckhardt; e essa originalidade faz de Tweddle um dos mais bem guardados segredos da literatura contempor&acirc;nea.<br /><br />O livro foi produzido pela Mount Abraxas de Bucareste e seu acabamento, como usual no caso de tal editora, &eacute; fenomenal. O mist&eacute;rio apresentado tanto pela capa quanto pela sobrecapa, o formato de livro ilustrado (ou cinematogr&aacute;fico, como costumo imaginar), a tipografia caprichada que torna a leitura suave &ndash; tudo aqui indica extremo cuidado e requinte.&nbsp; O negro e dourado da capa parecem dialogar com as s&oacute;brias fotos internas, que representam a congrega&ccedil;&atilde;o Kartaonista. De fato, trata-se da banda finlandesa Mansion em tais fotos, cujos discos, de forte voca&ccedil;&atilde;o her&eacute;tica, s&atilde;o reconstru&iacute;das narrativamente por Tweddle, que cria uma curiosa s&iacute;ntese narrativa para as m&uacute;sicas e o universo visual da banda. Mas isso, ao fim e ao cabo, pouco importa. Pois para se apreciar este romance basta um mergulho imaginativo no festiva sinest&eacute;sico que &eacute; esta <em>Magnus Opus </em>da literatura vision&aacute;ria.<br />&#8203;</div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/sermons_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Da imundície de todas as coisas (sobre "Bile Negra", de Oscar Nestarez)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/da-imundicie-de-todas-as-coisas-sobre-bile-negra-de-oscar-nestarez]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/da-imundicie-de-todas-as-coisas-sobre-bile-negra-de-oscar-nestarez#comments]]></comments><pubDate>Fri, 26 Jul 2019 14:39:25 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/da-imundicie-de-todas-as-coisas-sobre-bile-negra-de-oscar-nestarez</guid><description><![CDATA[       La mort : mon ironie d&eacute;passe toutes les autres! de Odilon Redon.Talvez o trecho mais conhecido de Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; Literatura Fant&aacute;stica de Tzvetan Todorov seja justamente o seu final &ndash; &eacute; quando ele indica quais seriam os becos sem sa&iacute;da da fic&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica que sua an&aacute;lise perde o foco estrutural e ganha algo de um verniz positivista, uma confian&ccedil;a no poder explicativo/terap&ecirc;utico do discurso cien [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/redon1_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph"><span style="color:rgb(51, 51, 51)"><em>La mort : mon ironie d&eacute;passe toutes les autres</em>! de Odilon Redon.</span><br /><br /><br />Talvez o trecho mais conhecido de<em> Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; Literatura Fant&aacute;stica</em> de Tzvetan Todorov seja justamente o seu final &ndash; &eacute; quando ele indica quais seriam os becos sem sa&iacute;da da fic&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica que sua an&aacute;lise perde o foco estrutural e ganha algo de um verniz positivista, uma confian&ccedil;a no poder explicativo/terap&ecirc;utico do discurso cient&iacute;fico para desfazer as fantasias da ambiguidade fant&aacute;stica. Se entendida dessa forma, como um tipo de eletrifica&ccedil;&atilde;o de um besti&aacute;rio ancestral, a literatura fant&aacute;stica tenderia a uma linguagem est&aacute;tica e a se tornar uma &ldquo;proped&ecirc;utica da literatura&rdquo;, como o pr&oacute;prio Todorov afirma. Mas a verdade &eacute; que o fant&aacute;stico, aos poucos, deixou de ter interesse na ambiguidade entre real e imaginado (ou sobrenatural) para centrar seu foco na tens&atilde;o gerada pela estranheza. S&atilde;o os momentos em que, por um &aacute;timo, nossa racionalidade parece amea&ccedil;ada &ndash; sons murmurados, imagens vistas de relance, sensa&ccedil;&otilde;es inexplic&aacute;veis que nossa mente tenta, em desespero, traduzir, trazer para a dimens&atilde;o do razo&aacute;vel. N&atilde;o se trata apenas da amea&ccedil;a sobrenatural ou da loucura, mas de um temor em n&atilde;o reconhecer mais nosso universo e sua fortuita casualidade.&nbsp; Nossa &acirc;nsia por verossimilhan&ccedil;a atual permite tudo, menos essa proximidade assustadora com um&nbsp;<em>nada </em>que sequer sabemos como nomear.&nbsp;<br /><br />O breve romance de Oscar Nestarez, <em><a href="https://editoraempireo.com.br/produto/bile-negra/" target="_blank">Bile Negra</a></em>, obedece em seus melhores momentos a essa l&oacute;gica do horror que surge da incapacidade de nossa percep&ccedil;&atilde;o traduzir a entropia da natureza em imagens mais palat&aacute;veis. Talvez seja por conta da op&ccedil;&atilde;o feita pela valoriza&ccedil;&atilde;o dessa nossa defici&ecirc;ncia perceptiva &ndash; na verdade uma defici&ecirc;ncia <em>lingu&iacute;stica</em>, pois o desespero que se abate sobre n&oacute;s diante do incomum &eacute; a impossibilidade de nome&aacute;-lo &ndash; o que dota o solipsismo narrativo que o autor emprega de uma energia feroz, uma f&uacute;ria verdadeiramente barroca. O Mal nunca se limita ou se circunscreve aqui e embora os melhores momentos da trama sejam aqueles que que a tens&atilde;o conduz os personagens e a sensa&ccedil;&atilde;o de cat&aacute;strofe parece corroer tudo ao redor, Nestarez nunca nos poupa de nada, sem piedade, sem fazer prisioneiros ou deixar sobreviventes. H&aacute;, por exemplo, uma n&iacute;tida op&ccedil;&atilde;o por aquilo que Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo (a partir de Chesterton) chamavam "perigo amarelo", efeito exemplificado na introdu&ccedil;&atilde;o da<em> Antologia de Literatura Fant&aacute;stica</em> organizada pelos tr&ecirc;s da seguinte maneira: "Wells teria ca&iacute;do no perigo amarelo se houvesse criado, ao inv&eacute;s de um &uacute;nico homem invis&iacute;vel ex&eacute;rcitos deles que invadissem e dominassem o mundo." Trata-se exatamente do que temos aqui; mas esse excesso &eacute; eficaz, embora seja nas sombras, por tr&aacute;s dos olhos dos personagens, que a trama funcione melhor.<br /><br />N&atilde;o por acaso, p&aacute;ginas negras prenunciam as vis&otilde;es mais brutais da trama, solu&ccedil;&atilde;o tipogr&aacute;fica brilhante. Seriam essas vis&otilde;es do protagonista? De algum dos personagens? N&atilde;o fica muito claro, mas &eacute; perene a atmosfera de pesadelo boschiano que cada uma delas suscita. As primeiras (notadamente a primeira, retomada no cap&iacute;tulo final) s&atilde;o as melhores, mas em todas h&aacute; a opressiva percep&ccedil;&atilde;o do ominoso. Pois se o desenrolar da trama parece obedecer, muitas vezes, a l&oacute;gica do excesso, sua conclus&atilde;o acontece na escala menor do casal humano, uma invers&atilde;o cruel do arqu&eacute;tipo "casal primordial", de Ad&atilde;o e Eva, que anuncia, sem delongas, justificativas ou eufemismos, o fim &uacute;ltimo da humanidade, aparentemente ansiado dentro do abismo solit&aacute;rio dos personagens do livro como um reflexo do que alimentamos nos rec&ocirc;nditos de cada um de n&oacute;s.<br /><br />Alcebiades Diniz Miguel</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um alfabeto extraordinário (a experiência em versos e imagens de Reggie Oliver)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/um-alfabeto-extraordinario-a-experiencia-em-versos-e-imagens-de-reggie-oliver]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/um-alfabeto-extraordinario-a-experiencia-em-versos-e-imagens-de-reggie-oliver#comments]]></comments><pubDate>Wed, 09 Aug 2017 09:40:29 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/um-alfabeto-extraordinario-a-experiencia-em-versos-e-imagens-de-reggie-oliver</guid><description><![CDATA[       Uma das caracter&iacute;sticas mais perenes da humanidade, talvez, seja sua tend&ecirc;ncia a evitar o incongruente, o incognosc&iacute;vel. Optamos por um reconhecimento dos objetos que nos cercam &ndash; se queremos evitar a perturbadora experi&ecirc;ncia do Unheimlich&nbsp;freudiano &ndash; cristalino, sem surpresas ou sobressaltos. A multiplicidade do engenho e da arte humanas segue esse mesmo padr&atilde;o, e isso, claro, inclui as editoras. Evita-se o livro monstruoso, ou seja, aque [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/haunt_1_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">Uma das caracter&iacute;sticas mais perenes da humanidade, talvez, seja sua tend&ecirc;ncia a evitar o incongruente, o incognosc&iacute;vel. Optamos por um reconhecimento dos objetos que nos cercam &ndash; se queremos evitar a perturbadora experi&ecirc;ncia do <em>Unheimlich</em>&nbsp;freudiano &ndash; cristalino, sem surpresas ou sobressaltos. A multiplicidade do engenho e da arte humanas segue esse mesmo padr&atilde;o, e isso, claro, inclui as editoras. Evita-se o <em>livro monstruoso</em>, ou seja, aquele marcado pela heterogeneidade e hibridismo desde a Antiguidade, pois o alvo privilegiado &eacute; o todo harm&ocirc;nico, o resultado esperado, o elemento facilmente reconhec&iacute;vel e catalog&aacute;vel. Em sua <em>Arte Po&eacute;tica</em>, Hor&aacute;cio reprova o livro monstruoso, constitu&iacute;do por partes desiguais e desarm&ocirc;nicas, afirmando que tais totalidades multiformes s&atilde;o os <em>aegri somnia</em>, esses produtos da imagina&ccedil;&atilde;o desenfreada, inacess&iacute;veis a um ordenamento saud&aacute;vel, convencional. Talvez, Hor&aacute;cio imaginasse que esses <em>aegri somnia</em>&nbsp;um dia fossem extintos, que a imagina&ccedil;&atilde;o encontraria um caminho uniforme, que a mente humana se conformaria com a proje&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica do belo que seguisse padr&otilde;es elevados de decoro. Mas estava errado: apesar de toda nossa organiza&ccedil;&atilde;o, talvez mesmo instintiva, de toda essa busca de um imagin&aacute;rio depurado, os <em>aegria somnia</em>&nbsp;persistem, encontrando locais inusitados para sua eclos&atilde;o. Talvez um digno representante herdeiro desse tipo de construto que tanto desagradava o digno Hor&aacute;cio seja, justamente, <em>The Hauntings at Tankerton Park</em>, livro ilustrado de Reggie Oliver, publicado com elegante e discreta suntuosidade pela <a href="http://www.zagava.de" target="_blank">Zagava Press</a>.<br /><br />&Agrave; primeira vista, nada haveria de incomum em <em>Hauntings</em>: trata-se de um alfabeto ilustrado, em que cada letra do alfabeto &eacute; ilustrada por um verso e por uma imagem simultaneamente. Abaixo, temos um exemplo desse g&ecirc;nero did&aacute;tico de cria&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria (em vers&atilde;o espanhola), retirado do blog <em><a href="https://eldesvandelabuelito.wordpress.com/2015/05/28/didactica-ejemplar/" target="_blank">El desv&aacute;n del abuelito</a></em>:<br /></div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/silabario-blog-0001_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph"><br />&#8203;No caso do trabalho de Reggie Oliver, as letras ilustradas comp&otilde;em uma breve narrativa, constitu&iacute;da pelo ato de montagem/desmontagem das imagens e dos versos. Trata-se sem d&uacute;vida de uma inova&ccedil;&atilde;o, embora mesmo ela j&aacute; tenha sido precedida por algumas outras experi&ecirc;ncias, como <em>The Dangerous Alphabet</em>&nbsp;de Neil Gaiman e Gris Grimly. Mas a simplicidade, austeridade e mesmo convencionalidade <em>Hauntings</em>&nbsp;&eacute; apenas aparente: trata-se de um leg&iacute;timo pesadelo, uma manifesta&ccedil;&atilde;o intrincada em que imagens, versos e um contexto narrativo tornam-se elementos heter&oacute;clitos de uma totalidade que ressoa na mente do leitor e que se distancia das refer&ecirc;ncias tranquilizadoras de g&ecirc;nero ou forma. Nesse sentido, s&atilde;o as imagens que saltam aos olhos do leitor de forma imediata; extremamente sugestivas, elas criam uma verdadeira gram&aacute;tica de interiores e ambienta&ccedil;&otilde;es vitorianas, incluindo at&eacute; mesmo as ornamenta&ccedil;&otilde;es orientalizantes acess&oacute;rias ao estilo, como vemos na letra X de Xerxes. O estilo de Oliver, por ele empregado na ilustra&ccedil;&atilde;o de seus contos, encontra aqui uma express&atilde;o ou mesmo tempo mais sutil e mais direta, em que s&atilde;o evocados tanto a aspereza da xilogravura quanto a suavidade de claro-escuro que valoriza as transi&ccedil;&otilde;es e as sombras, como as &aacute;guas-fortes de Goya.&nbsp;<br /><br />Se o livro fosse apenas essas imagens detalhadas, esses ambientes ao mesmo tempo vertiginosos e sufocantes nos quais ocorre o imposs&iacute;vel, o absurdo, <em>Hauntings</em>&nbsp;j&aacute; seria um livro memor&aacute;vel. Mas ele vai al&eacute;m disso gra&ccedil;as a outros dois elementos heter&oacute;clitos: os versos e a narrativa. No caso dos versos, o autor buscou certa singeleza dos versos infantis:<br /><br />&ldquo;F was the Frog they acquired from a farm<br />To eat up the finger that caused such alarm&rdquo;<br /><br />A rima simples evoca o <em>non-sense</em>&nbsp;do universo infantil, mantendo, contudo, a <em>literalidade</em> do elemento descrito na pavorosa imagem do sapo gigantesco devorando um dedo igualmente desproporcional, inumano. Essa tens&atilde;o entre a forma (os versos singelos), a literalidade do sentido e o di&aacute;logo com a imagem que ilustra o verso e que ultrapassa essa funcionalidade aparentemente limitada criam um efeito not&aacute;vel. Por outro lado, esses versos escapam da funcionalidade did&aacute;tica do silab&aacute;rio ou do alfabeto ilustrado &ndash; Reggie Oliver n&atilde;o pretende ilustrar o seu leitor com a memoriza&ccedil;&atilde;o das letras do alfabeto. O que ele quer &eacute; contar a hist&oacute;ria de uma fam&iacute;lia que se mudam para uma mans&atilde;o vitoriana, encontrando nesse novo lar as mais inusitadas apari&ccedil;&otilde;es. Essa &acirc;nsia narrativa desloca novamente a percep&ccedil;&atilde;o do leitor, tornando a experi&ecirc;ncia dessa viagem por imagens e versos bastante inusitada e &uacute;nica. De fato, a edi&ccedil;&atilde;o da Zagava colabora para a obten&ccedil;&atilde;o de todos esses efeitos por ser primorosa: tenho, em minhas m&atilde;os, a vers&atilde;o mais barata. Mesmo essa vers&atilde;o simples impressiona desde a capa &ndash; inteiramente preta, um negativo de uma das imagens internas do livro &ndash; pelo tamanho, qualidade da impress&atilde;o e formato, torna a revisita da breve narrativa um prazer renovado.&nbsp;<br /><br />E, de fato, essa repeti&ccedil;&atilde;o, o ato de revisitar, torna-se chave nesse breve volume. Walter Benjamin, o fil&oacute;sofo alem&atilde;o que trabalhou com temas eruditos como o drama barroco alem&atilde;o, o narrador (a partir de Nikolai Leskov), o conceito de hist&oacute;ria e as passagens parisienses, era igualmente fascinado pela materialidade inevit&aacute;vel do livro para crian&ccedil;as e suas curiosas, estranhas idiossincrasias. Para Benjamin a crian&ccedil;a materializaria um verso de Goethe: &ldquo;<span>Es lie&szlig;e sich alles trefflich schlichten,&nbsp;</span><span>k&ouml;nnte man die Sachen zweimal verrichten</span>&rdquo; (tudo ocorreria com perfei&ccedil;&atilde;o, se se pudesse fazer duas vezes as coisas). A repeti&ccedil;&atilde;o fornece um prazer espantoso para a crian&ccedil;a; pois, de fato, <em>Hauntings</em>&nbsp;desloca seu leitor (adulto ou crian&ccedil;a) para essa dimens&atilde;o de imenso prazer na repeti&ccedil;&atilde;o, em ver novamente aquelas imagens espantosas, repetir os versos, refazer o percurso da narrativa. Uma vez mais. E novamente.</div>  <div class="wsite-youtube" style="margin-bottom:10px;margin-top:10px;"><div class="wsite-youtube-wrapper wsite-youtube-size-auto wsite-youtube-align-center"> <div class="wsite-youtube-container">  <iframe src="//www.youtube.com/embed/VYX6ndGnFBQ?wmode=opaque" frameborder="0" allowfullscreen></iframe> </div> </div></div>  <div class="paragraph"><em>Nota: a cita&ccedil;&atilde;o de Goethe foi gentilmente corrigida por Jonas Pl&ouml;ger.</em></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A natureza da invisibilidade (sobre o universo de John Howard em “Visit of a Ghost”)]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-natureza-da-invisibilidade-sobre-o-universo-de-john-howard-em-visit-of-a-ghost]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-natureza-da-invisibilidade-sobre-o-universo-de-john-howard-em-visit-of-a-ghost#comments]]></comments><pubDate>Tue, 25 Jul 2017 09:56:07 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/a-natureza-da-invisibilidade-sobre-o-universo-de-john-howard-em-visit-of-a-ghost</guid><description><![CDATA[       A velha m&aacute;xima do Eclesiastes 1:9, &ldquo;nihil novi sub sole&rdquo; (N&atilde;o h&aacute; nada de novo sob o Sol), parece materializar de modo geral, uma esp&eacute;cie de regra, impiedosa, estabelecida, inflex&iacute;vel como o a&ccedil;o. Mas o fato &eacute; que a inova&ccedil;&atilde;o, o novum&nbsp;n&atilde;o precisa surgir de uma altera&ccedil;&atilde;o brutal, de uma revolu&ccedil;&atilde;o em termos absolutos, totais. H&aacute; modifica&ccedil;&otilde;es espantosas que surg [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/00002_1_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">A velha m&aacute;xima do Eclesiastes 1:9, &ldquo;nihil novi sub sole&rdquo; (N&atilde;o h&aacute; nada de novo sob o Sol), parece materializar de modo geral, uma esp&eacute;cie de regra, impiedosa, estabelecida, inflex&iacute;vel como o a&ccedil;o. Mas o fato &eacute; que a inova&ccedil;&atilde;o, o <em>novum</em>&nbsp;n&atilde;o precisa surgir de uma altera&ccedil;&atilde;o brutal, de uma revolu&ccedil;&atilde;o em termos absolutos, totais. H&aacute; modifica&ccedil;&otilde;es espantosas que surgem de pequenas nuances, manipuladas com destreza, habilidade, sensibilidade. Quando diante desse tipo de novidade, em uma novela, romance, poema ou filme, sentimos esse arrepio benfazejo despertado pelas obras-primas &ndash; algo que sentimos t&atilde;o logo contemplamos esse &ldquo;FIN&rdquo; cinematogr&aacute;fico, que fecha o mais novo livro de John Howard, <em><a href="https://www.goodreads.com/book/show/34812643-visit-of-a-ghost" target="_blank">Visit of a Ghost</a></em>.<br /><br />O <em>novum</em> dessa breve (pouco mais de 35 p&aacute;ginas) narrativa de Howard surge inicialmente de dois aspectos relacionados diretamente com a trama. O primeiro deles, j&aacute; uma caracter&iacute;stica conhecida daqueles que acompanham esse extraordin&aacute;rio autor, &eacute; a localiza&ccedil;&atilde;o: a cidade imagin&aacute;ria de Steaua de Munte. Trata-se de um triunfo da imagina&ccedil;&atilde;o de Howard, obtido atrav&eacute;s do arranjo econ&ocirc;mico de elementos aparentemente triviais. O mapa imagin&aacute;rio da fic&ccedil;&atilde;o &eacute; imenso, diversificado, desde as lendas de Preste Jo&atilde;o a Jonathan Swift, de William Faulkner a Gabriel Garc&iacute;a M&aacute;rquez. Mas Steaua de Munte &eacute; uma paisagem familiar constru&iacute;da pacientemente, seus elementos m&iacute;nimos em conjun&ccedil;&atilde;o com outros muito mais amplos, dando &agrave; totalidade uma figura&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica, quase de realidade alternativa. Nesse sentido, John Howard parece ter em mente um trecho do poema &ldquo;Juan L&oacute;pez y John Ward&rdquo;, de Jorge Luis Borges: &ldquo;El planeta hab&iacute;a sido parcelado en distintos pa&iacute;ses, cada uno provisto de lealtades, de queridas memorias, de un pasado sin duda heroico, de derechos, de agravios, de una mitolog&iacute;a peculiar, de pr&oacute;ceres de bronce, de aniversarios, de demagogos y de s&iacute;mbolos. Esa divisi&oacute;n, cara a los cat&oacute;grafos, auspiciaba las guerras.&rdquo;&nbsp;<br /><br />O segundo aspecto, nesse sentido, surge logo no t&iacute;tulo: a ideia de <em>fantasma</em>. Trata-se de um elemento fant&aacute;stico t&atilde;o empregado em tantas formas de narrativa diferenciadas que sua exist&ecirc;ncia torna-se praticamente irris&oacute;ria &ndash; o leitor, diante dessa palavra, inicia o processo mental de acomoda&ccedil;&atilde;o desse conceito em alguma das in&uacute;meras possibilidades j&aacute; conhecidas e compartilhadas no imenso acervo de significados dispon&iacute;veis, reconhecidos, catalogados. Mas aqui o fantasma desdobra-se, englobando aspectos de apar&ecirc;ncia simples, mas que est&atilde;o distantes de certa singeleza inocente. O encontro desses dois fantasmas &eacute; mantido em boa parte da trama como um evento potencial, algo que ocasiona um extraordin&aacute;rio <em>quid pro quo</em>&nbsp;cuja complexidade surge de uma escalada de incompreens&atilde;o m&uacute;ltiplo, algo constru&iacute;do de forma simples mas natural, como tantos outros equ&iacute;vocos cotidianos. Quando esses dois fantasmas finalmente convergem, em um evento particularmente extraordin&aacute;rio, tal encontro clim&aacute;tico revela o que talvez seja o ponto cr&iacute;tico da narrativa, em termos tem&aacute;ticos: a descoberta de uma outra Europa, talvez invi&aacute;vel nos dias de hoje, talvez invi&aacute;vel desde sempre, mais aberta ao olhar e &agrave; presen&ccedil;a do Outro. Nesse sentido, a hist&oacute;ria de John Howard trouxe &agrave; minha mente um ensaio de Ezra Pound entitulado &ldquo;The Passport Nuissance&rdquo;, publicado no <em>The Nation</em>&nbsp;a 30 de novembro de 1927. Nesse breve ensaio, Pound vitupera contra a forma&ccedil;&atilde;o de uma burocracia nova que, ap&oacute;s a Primeira Guerra Mundial, tornava essa atividade desinteressada que &eacute; viajar mais e mais complicada. Nesse mesmo esp&iacute;rito, um dos personagens afirma (e esse &eacute; o d&iacute;stico que aparece na parte posterior da sobrecapa) "My new book will be called Around Europe", ou seja, "Meu novo livro vai se chamar A Europa ao Redor". Trata-se de uma outra Europa, potencialmente acolhedora embora cercada das usuais nuvens tempestuosas da guerra, da intoler&acirc;ncia. Mas, talvez, esse seja apenas um sentido poss&iacute;vel, uma leitura de muitas dispon&iacute;veis.<br /><br />Fisicamente, o livro &eacute; extraordin&aacute;rio por sua unidade, realiza&ccedil;&atilde;o ali&aacute;s usual da editora <a href="http://www.i-m.mx/Thessarether1941/proba2/home.html" target="_blank">Ex Occidente/Mount Abraxas</a>. A tipografia equilibrada, a op&ccedil;&atilde;o pela fotografia como elemento significativo, mesmo o uso desse recurso cinematogr&aacute;fico inesperado, o &ldquo;FIN&rdquo; ao final da obra. Ali&aacute;s, o uso de recursos fotogr&aacute;ficos, aliados com formata&ccedil;&otilde;es inteligentes de pagina&ccedil;&atilde;o, estabeleceu efeitos &uacute;nicos, cinematogr&aacute;ficos. Pois, de fato, trata-se de uma hist&oacute;ria que poderia estar nas telas do cinema, como <em>A Condessa Descal&ccedil;a</em>&nbsp;(de Joseph L. Mankiewicz), <em>A &Uacute;ltima Ordem</em>&nbsp;(de Josef von Sternberg) ou <em>Grilh&otilde;es do Passado</em>&nbsp;(de Orson Welles).</div>  <div class="wsite-youtube" style="margin-bottom:10px;margin-top:10px;"><div class="wsite-youtube-wrapper wsite-youtube-size-auto wsite-youtube-align-center"> <div class="wsite-youtube-container">  <iframe src="//www.youtube.com/embed/fkYr4G6SO0c?wmode=opaque" frameborder="0" allowfullscreen></iframe> </div> </div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Livros impossíveis (sobre Astronautilia) - Parte 2]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-2]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-2#comments]]></comments><pubDate>Wed, 12 Jul 2017 09:14:46 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-2</guid><description><![CDATA[       &nbsp;Alguns livros possuem um impacto todo especial em sua exist&ecirc;ncia mesma, seu *ser no mundo*; por n&atilde;o possu&iacute;rem uma apresenta&ccedil;&atilde;o padronizada, uma estrutura exterior convencional, tornam-se objetos de fasc&iacute;nio antes mesmo de serem abertos. Alguns apresentam uma capa estranha, chocante ou extraordin&aacute;ria, estando nessa imagem externa sua fonte de magnetismo mais evidente e concreta. Assim, a tradu&ccedil;&atilde;o para o franc&ecirc;s do ro [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/img0002_orig.jpeg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph">&nbsp;Alguns livros possuem um impacto todo especial em sua exist&ecirc;ncia mesma, seu *ser no mundo*; por n&atilde;o possu&iacute;rem uma apresenta&ccedil;&atilde;o padronizada, uma estrutura exterior convencional, tornam-se objetos de fasc&iacute;nio antes mesmo de serem abertos. Alguns apresentam uma capa estranha, chocante ou extraordin&aacute;ria, estando nessa imagem externa sua fonte de magnetismo mais evidente e concreta. Assim, a tradu&ccedil;&atilde;o para o franc&ecirc;s do romance de J. G. Ballard <em>The Atrocity Exhibition</em>&nbsp;(1970), feita por Fran&ccedil;ois Rivi&egrave;re e publicada em 1976 pela Editions Champ Libre, com o t&iacute;tulo <em>La Foire aux Atrocit&eacute;s</em>, pela cole&ccedil;&atilde;o <em>Chute Libre</em>&nbsp;(queda-livre) &ndash; apresenta uma dessas capas <a href="http://www.johncoulthart.com/feuilleton/2012/08/23/chute-libre-science-fiction/" target="_blank">extraordinariamente marcantes</a>. Trata-se de uma esp&eacute;cie de retrato, em forma de ilustra&ccedil;&atilde;o cuja autoria &eacute; desconhecida, na qual temos um rosto (feminino, provavelmente) obliterado por venda e morda&ccedil;a. As cores da imagem (o vermelho v&atilde;o fundo, o verde, o marrom claro da pele, o negro que cria certo contraste) s&atilde;o poderosamente evocativas, embora a imagem em si tenha pouco a ver com o conte&uacute;do do livro. Outra forma, mais complexa, de um livro expressar sua pot&ecirc;ncia em si mesmo &eacute; pelo seu volume, a maneira como sua estrutura externa se apresenta ao leitor &ndash; nesse sentido, as recentes colet&acirc;neas <em><a href="http://www.zagava.de/?post_type=books&amp;p=398" target="_blank">Booklore</a></em>&nbsp;e <em><a href="http://www.i-m.mx/Thessarether1941/proba2/the-whore-is-this-temple.html" target="_blank">The Whore is This Temple</a></em>&nbsp;s&atilde;o imponentes de forma peculiar. A primeira ao evocar a multiplicidade de uma biblioteca por seu conflito entre formato e conte&uacute;do; a segunda, por ser uma esp&eacute;cie de objeto imposs&iacute;vel, um tipo de grim&oacute;rio contempor&acirc;neo embora seja, de fato, uma colet&acirc;nea de cria&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas e narrativas.<br /><br /><em>Astronautilia</em> est&aacute; pr&oacute;ximo dessas duas tend&ecirc;ncias, mas de uma forma muito pr&oacute;pria, pois seu impacto acontece em ondas sucessivas, que jogam o leitor de um sobressalto aparentemente superado a outro., culminando em um impacto final muito pr&oacute;prio e decisivo. Em sua sobrecapa, de um forte tom azul, temos uma ilustra&ccedil;&atilde;o sugestiva de V&aacute;clav Pazourek como a primeira imagem que confrontamos, a capa de fato: trata-se de um retrato, de perfil, bastante colorido (o estilo sugere um expressionismo vagamente primitivista) do que aparenta ser um guerreiro do passado, provavelmente um hoplita da Gr&eacute;cia Antiga. &Eacute; poss&iacute;vel identificar na imagem o escudo, o elmo, a lan&ccedil;a que esse soldado ostenta. Mas a ilustra&ccedil;&atilde;o, ao mesmo tempo, escapa dessa determina&ccedil;&atilde;o por um tra&ccedil;o de <em>futurismo</em>&nbsp;tecnol&oacute;gico que a atravessa &ndash; o espa&ccedil;o branco entre o rosto e o fundo da imagem sugerem um capacete de astronauta, adaptado para uso no espa&ccedil;o sideral; os elaborados arabescos no elmo sugerem uma civiliza&ccedil;&atilde;o e uma hist&oacute;ria que n&atilde;o s&atilde;o inteiramente humanas; o olho do hoplita, por fim, repuxado e multiplicado (seriam lentes? Ou um olho alien&iacute;gena, de fato?) por efeito do tra&ccedil;o empregado pelo ilustrador garante a persist&ecirc;ncia do efeito de estranheza. Essa imagem extraordin&aacute;ria serve de cobertura para a capa dura da edi&ccedil;&atilde;o, bem mais s&oacute;bria &ndash; azul escuro suavemente marmorizado, com a parte em grego do t&iacute;tulo gravada em tons prateados enquanto a parte tcheca est&aacute; em baixo relevo &ndash;, que remete a cole&ccedil;&otilde;es como as tradu&ccedil;&otilde;es de obras da Antiguidade publicadas por editoras como a <a href="https://www.lesbelleslettres.com" target="_blank">&Eacute;ditions Les Belles Lettres</a>.&nbsp;<br /><br />Mas esse impacto provocado pela rica imagem da sobrecapa, pela solidez da capa e mesmo pelo volume desse livro razoavelmente denso constituem o primeiro momento, a prepara&ccedil;&atilde;o para o impacto ainda maior com aquilo que poder&iacute;amos denominar <em>a descoberta lingu&iacute;stica</em>&nbsp;de seu conte&uacute;do. Pois, logo nas primeiras p&aacute;ginas, o leitor est&aacute; diante de uma <em>confusio linguarum</em>&nbsp;de propor&ccedil;&otilde;es consider&aacute;veis: h&aacute; textos em ingl&ecirc;s, latim, tcheco &ndash; mas tudo isso &eacute; apenas a porta de entrada para o poema, milhares de hex&acirc;metros em glorioso grego hom&eacute;rico escritos &agrave; m&atilde;o.</div>  <div class="wsite-youtube" style="margin-bottom:10px;margin-top:10px;"><div class="wsite-youtube-wrapper wsite-youtube-size-auto wsite-youtube-align-center"> <div class="wsite-youtube-container">  <iframe src="//www.youtube.com/embed/COMczo6oOW4?wmode=opaque" frameborder="0" allowfullscreen></iframe> </div> </div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Livros impossíveis (sobre Astronautilia) - Parte 1]]></title><link><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-1]]></link><comments><![CDATA[http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-1#comments]]></comments><pubDate>Thu, 22 Jun 2017 11:06:46 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">http://bibliofagia.weebly.com/blog/livros-impossiveis-sobre-astronautilia-parte-1</guid><description><![CDATA[       Existem certos livros que parecem n&atilde;o existir &ndash; ou melhor, parecem existir apenas como uma possibilidade ficcional, um tipo de intera&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria. Desde Rabelais, que fazia seu gigante Pantagruel empregar seu tempo lendo obras-primas imagin&aacute;rias que inclu&iacute;am um guia seguro para a flatul&ecirc;ncia em p&uacute;blico, escrito por certo Magister Noster Ortuinus, n&atilde;o poucos autores povoaram sua fic&ccedil;&atilde;o, seu universo compart [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="http://bibliofagia.weebly.com/uploads/4/8/5/3/48536869/img0001_orig.jpg" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>  <div class="paragraph" style="text-align:justify;">Existem certos livros que parecem n&atilde;o existir &ndash; ou melhor, parecem existir apenas como uma possibilidade ficcional, um tipo de intera&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria. Desde Rabelais, que fazia seu gigante Pantagruel empregar seu tempo lendo obras-primas imagin&aacute;rias que inclu&iacute;am um guia seguro para a flatul&ecirc;ncia em p&uacute;blico, escrito por certo Magister Noster Ortuinus, n&atilde;o poucos autores povoaram sua fic&ccedil;&atilde;o, seu universo compartilhado com a realidade, de obras livros imposs&iacute;vel. S&atilde;o volumes que, caso existissem de fato (pois isso parece improv&aacute;vel, uma realiza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica invi&aacute;vel), seriam como o volume perdido da <em>Encyclopedia Britannica</em> encontrada por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares no conto &ldquo;Tl&ouml;n, Uqbar, orbis Tertius&rdquo; &ndash; parte de uma conspira&ccedil;&atilde;o que visa demolir os alicerces de nossa realidade. Mas, certos momentos, cruzamos com esses livros imagin&aacute;rios; nosso tato reconhece suas texturas, a suavidade de suas p&aacute;ginas e a graciosa lisura de sua capa. O momento em que encontramos livros imagin&aacute;rios (ou que <em>poderiam </em>ser imagin&aacute;rios) &eacute; como se encontramos uma brecha na continuidade de uma realidade cotidiana, sistem&aacute;tica, prosaica, imanente. Posso dizer que, algumas vezes em minha vida, encontrei esses volumes semi-imagin&aacute;rios nos mais diversos locais &ndash; bibliotecas, pequenas livrarias, bancas de livros usados em plena rua, livrarias virtuais, sites de pequenas editoras artesanais (parte desses livros, ali&aacute;s, foram resenhados aqui, neste blog, que surgiu por causa deles). <br /><br />&#8203;Um dos &uacute;ltimos encontros com esses livros que parecem tornar o tecido da realidade mais delgada e f&aacute;cil de se esgar&ccedil;ar &ndash; para se romper e se tornar um peda&ccedil;o mut&aacute;vel do imagin&aacute;rio &ndash; foi com o inacredit&aacute;vel livro <em><a href="https://www.goodreads.com/book/show/4693417-astronautilia-hv-zdoplavba" target="_blank">Astronautilia/Hv&#283;zdoplavba</a></em>, do pol&iacute;grafo tcheco Jan K&#345;esadlo (na verdade, o pseud&ocirc;nimo de V&aacute;clav Pinkava), publicada por Ivo &#381;elezn&yacute;, editor famoso por seu trabalho de populariza&ccedil;&atilde;o do esperanto. Trata-se de um livro espantoso, que chegou dessa terra distante (ao menos de meu ponto de vista, um pedestre do hemisf&eacute;rio sul), que se dissolve em uma bruma igualmente imagin&aacute;ria, a terra do Golem e de Kafka, da Rep&uacute;blica Checa, de uma pequena cidade cuja curiosa sonoridade do nome, para um falante do portugu&ecirc;s, soa ao mesmo tempo po&eacute;tica e fe&eacute;rica. Ao abrir o pacote, me deparei com um alentado tomo, em um estojo de papel&atilde;o s&oacute;lido. Esses estojo, ao mesmo tempo r&uacute;stico e funcional, realizado com per&iacute;cia, deixava ver em sua capa apenas a assinatura do autor, em uma caligrafia convulsiva &ndash; uma segura antecipa&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do do estojo, j&aacute; vis&iacute;vel na lombada do livro que tal arranjo mantinha exposto. Pois, de fato, esse conte&uacute;do seria ainda mais surpreendente.</div>  <div class="wsite-youtube" style="margin-bottom:10px;margin-top:10px;"><div class="wsite-youtube-wrapper wsite-youtube-size-auto wsite-youtube-align-center"> <div class="wsite-youtube-container">  <iframe src="//www.youtube.com/embed/yg2mzQTdin4?wmode=opaque" frameborder="0" allowfullscreen></iframe> </div> </div></div>  <div><div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div> <hr class="styled-hr" style="width:100%;"></hr> <div style="height: 20px; overflow: hidden; width: 100%;"></div></div>  <div class="paragraph" style="text-align:justify;">Livro &uacute;nico em mais de um sentido, <em>Astronautilia/Hv&#283;zdoplavba</em> ser&aacute; alvo de uma s&eacute;rie de pequenos filmes e coment&aacute;rios, que inaugurar&aacute; uma nova metodologia de nosso blog. Espero que seja do agrado de todos (em todo caso, enviem, se for o caso, coment&aacute;rios a respeito desse e de outros temas).<br /><span></span></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>